Bebel e Rodrigão haviam se conhecido na fila do Fundo de Garantia da Caixa Econômica. Apesar de trabalharem no "Atendimento ao Consumidor" de diferentes empresas, ambos foram demitidos pela mesma razão: Corte de custos.
Porém, há males na vida que vêm para o bem e Bebel sabia bem disso quando acordou naquela terça-feira abafada de março. Depois de um trem, dois ônibus e cinco tentativas de adentrar a porta giratória do banco sem nenhum objeto metálico na bolsa, Bebel pegou a senha 201, abriu a Folha Dirigida à procura dos concursos públicos e pôs-se a esperar enquanto o painel piscava ainda o número 89.
Entretanto, com a demora dos atendentes - na verdade, do atendente, porque só havia um - a velhinha da senha 200 se cansou e abandonou a fila, entregando o papelzinho amassado ao rapazinho que acabava de entrar e pegar a senha 536. O último da fila! Rodrigão.
- Oi. Desculpaê. Não tô furando fila não, tá? Foi a senhora ali que me deu o número. - Rodrigão justificou-se para Bebel, mostrando-lhe o papelzinho de número 200 já meio borrado pelo suor.
Convenhamos que se Rodrigão não havia acordado às seis da manhã para pegar um bom lugar, ele estava furando fila sim. Mas isso era um detalhe que Bebel nem se importou. Aliás, muito pelo contrário. Depois de uma ajeitadinha discreta no top tomara-que-caia e duas jogadinhas de cabelo, ela olhou para cima e falou baixinho: "Valeu, Deus!"
Conversa vai, conversa vem, telefones trocados e muitas indiretas diretamente lançadas, duas semanas depois o dia D finalmente chegou! E após um romântico rodízio de pizzas na Parmê, Rodrigão levou Bebel para um tórrida noite de amor no Marshmallow.
No dia seguinte, Rodrigão obviamente não ligou - "obviamente" era obviamente para ele, não para ela - mas Bebel não se fez de rogada e passou a mão no celular.
Ao que ele, é claro, não atendeu. (Mais uma vez, o "é claro" é para ele e não para ela)
Muito sagaz, Bebel tentou então uma ligação do telefone da sala, o qual Rodrigão não tinha o número.
No primeiro toque ele atendeu.
Bebel sabia muito bem como esse jogo funcionava.
- Alô.
- Alô. Sou eu, Bebel. A gente saiu ontem...
Foi possível ouvir o embaraço impresso na voz sonolenta de Rodrigão.
- Ah... Opa! Tudo bem?
- Eu te liguei agora mesmo, mas você não atendeu...
- Sério? Estranho... Meu telefone não tocou aqui não...
Bebel também já conhecia essa desculpa. Achava pouco criativa, mas fazer o quê...?
- Bem, eu tô te ligando porque... Olha, eu não vou fazer rodeios não, tá? Vou ser direta! Eu tô sozinha há o maior tempão e tá difícil pra caramba... Eu tô muito a fim de conhecer um cara especial, então pensei que talvez você pudesse me ajudar...
- Eu?
- É só responder minha pesquisa de opinião.
- Comequié?
Bebel esclareceu didaticamente.
- É tipo pesquisa de satisfação. Daí com o seu feedback eu posso melhorar e ter mais chances com o próximo cara que pintar. Entendeu?
- Tô ligado... - Rodrigão respondeu desconfiado.
- Sabe aqueles caminhões que tem uma placa atrás escrito "Como estou dirigindo?" e um número para a pessoa ligar? Então, é a mesma coisa só que você nem precisa ligar. Eu já tô ligando!
- Saquei.
- Ótimo. Vamos então à primeira pergunta: Onde foi que eu errei?
- Mas... péra aí... eu tenho que dizer assim?
- Relaxa, para sua segurança essa ligação não está sendo gravada.
Rodrigão hesitou um pouco mas decidiu cooperar.
- Pô, te achei meio autoritária, sabia?
- Eu? - essa ideia nunca havia passado pela cabeça de Bebel.
- Ontem, por exemplo, no restaurante você foi logo escolhendo a mesa, as bebidas...
- Mas é que...
- E eu também fiquei meio bolado por você não ter nem se oferecido para rachar a conta.
- Puxa, me desculpe... mas eu achei que tivesse subtendido que você ia...
- E eu ia! Mas você tinha que ter pelo menos oferecido pagar a sua parte.
- Ah tá... eu tenho que oferecer rachar, mesmo sabendo que o cara vai recusar?
- Isso aí.
- Entendi... Só um minutinho que eu preciso anotar essas informações.
Com o telefone apoiado no ombro, Bebel anotava cada palavra de Rodrigão, feito uma escrevente da Polícia.
- Ah...! E tem outra coisa. Anota aí também! Você é aquele tipo de mulher que brinca com criancinhas no shopping, né? Pois é, não curto esse lance não... Acho a maior bandeira de mulher desesperada para ser mãe!
Bebel ouvia todos os detalhes soterrada entre a surpresa e a atenção.
- E... pô... tem mais uma parada aí que eu achei bem grave...
- Nossa! Quanta coisa, né...?
- Nada a ver aquela calcinha bege, heim!
- Não era bege, era chá! E era nova!
- As da minha avó também.
Armazenada todas as informações, Bebel e Rodrigão despediram-se com um "tchau" meio frio e nunca mais voltaram a se falar. Porém, meses se passaram e imaginem qual não foi a surpresa de Rodrigão ao esbarrar com Bebel no corredor da Ben-te-vi agência de turismo, em seu primeiro dia de trabalho.
- Que coincidência! - Bebel exclamou.
- Pode crer. - só restou a Rodrigão concordar, pois era mesmo uma baita coincidência.
- Você estava desempregado desde aquela época?
- É, não estava aparecendo nada...
- Eu sei, a situação não está fácil... foi muita sorte minha ter achado esse emprego aqui também! É uma empresa bacana. Vai fazer três meses que eu tou aqui.
- Legal.
- Bom, então... Seja bem-vindo!
- Obrigado! E você, faz o que aqui mesmo?
- Eu vou ser sua chefe.